Soldado vargengrandense sobreviveu ao terremoto que devastou o Haiti
Há mais de seis meses no país, Anderson Fogarone está entre os militares brasileiros que ajudam as vítimas do tremor considerado como uma das piores tragédias da história das Américas
Bruno de Souza

Soldado Anderson junto com seus familiares durante um cerimonial do Exército A mãe do soldado, Audélia Moraes, junto com as filhas Larissa e Laura
Pessoas caminham pelas ruas de Porto Príncipe, devastada pelo terremoto Homem retira escombros da Igreja Sacre Coeur da capital haitiana

Milhares de habitantes famintos e incontáveis mortos. Este é o atual cenário do Haiti após ter sido devastado pelo forte terremoto que ocorreu na terça-feira, dia 12. O tremor de 7 graus na escala Richter teve início exatamente às 16h53 (19h53 no horário de Brasília), com epicentro a 15 quilômetros da capital Porto Príncipe.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) acredita que o número de mortos chegue a 100 mil. Já o governo haitiano estima que este número seja por volta de 200 mil. Até segunda-feira, dia 18, aproximadamente 70 mil corpos haviam sido enterrados em valas comuns. Com 1,5 milhão de desabrigados, a catástrofe ficou conhecida como uma das maiores da história e tem causado uma forte comoção em todo mundo.
Em meio a este panorama caótico, o Brasil tem exercido um papel de destaque na tentativa de recuperação do país – que deve levar anos – liderando as tropas da missão de paz da ONU, com 1.266 militares, número que poderá dobrar, segundo o Exército. Junto à tropa brasileira está o soldado vargengrandense Anderson Fogarone, 20 anos. Residente no Jardim São Luis, ele é filho de Audélia Moraes e Antônio Fogarone. O soldado pertence ao Batalhão do Exército de Pirassununga e está há mais de seis meses no Haiti. Sua partida ocorreu em 9 de julho do ano passado e desde então tem atuado como fuzileiro na nação mais pobre do ocidente.
E foi justamente durante o cumprimento de sua missão que Anderson presenciou os estragos causados pelo abalo sísmico que devastou o país. No momento do terremoto, ele fazia patrulhamento em um veículo militar. Assim que começou a tremer a terra, o soldado e seus companheiros tiveram que interromper a patrulha para se proteger. “Meu filho conseguiu ligar para casa somente na manhã do dia seguinte. Fiquei desesperada quando soube do tremor”, disse Audélia. “Na ocasião, ele contou que quando desceu do veículo, viu um muro cair e logo depois um poste. Em seguida, uma grande nuvem de poeira se ergueu. Havia muita gente ensanguentada e se ouvia apenas gritos e choros. Foi algo terrível”, relatou a mãe emocionada.
Se antes o serviço de Anderson e dos demais militares brasileiros era árduo, agora as dificuldades aumentaram ainda mais. Isso não somente pelos estragos causados pela natureza, mas também devido ao desespero da população. “Quando conversamos percebi que esta catástrofe mexeu com meu filho. Ele disse que o povo está muito agitado, passando fome e sede. As pessoas brigam entre si desesperadas por causa de alimentos”, comentou Audélia.

“Estou aqui porque quero ajudar as pessoas”, disse Anderson

Anderson tem trabalhado bastante no Haiti, realizando patrulhamentos e escoltas. São poucas horas de sono, o que torna sua tarefa mais desgastante. Mesmo assim, o soldado vargengrandense tem mostrado fibra para suportar as adversidades. “Ele explicou que ainda há muitos corpos espalhados pelas ruas e o mau cheiro é forte. Todos estão trabalhando usando máscaras e luvas”, relatou Audélia. “Além disso, houve um outro tremor, porém, não causou nenhum estrago já que foi mais fraco”, complementou a mãe.
No domingo, dia 17, Anderson ligou novamente para sua família e disse para sua mãe não se preocupar que estava tudo bem. “Durante a conversa, pedi para que ele voltasse logo ao país, mas ele respondeu que estava cumprindo o que lhe foi designado”. Segundo Audélia, Anderson ainda afirmou: “Estou aqui porque quero ajudar as pessoas. Vocês não estão precisando de mim no momento, mas eles estão”. “Fiquei bastante sensibilizada”, concluiu Audélia, emocionada com as palavras do filho.
A vinda de Anderson ao Brasil estava programada para o dia 28 de fevereiro, mas poderá ser antecipada para o início do mês.

17 brasileiros morreram durante o terremoto
Segundo o ministro da Defesa, Nelson Jobim, 17 brasileiros morreram durante o terremoto que atingiu o Haiti. Entre as vítimas, 14 eram militares e conhecidos de Anderson – inclusive, um deles estava em patrulhamento com o soldado vargengrandense no dia anterior ao tremor.
Além dos militares, também morreram três civis, entre eles a médica Zilda Arns fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança, e o chefe-adjunto civil da missão da ONU no Haiti, Luiz Carlos da Costa.
Campanha via Orkut
Bastante sensibilizado, Anderson tem procurado ajudar as vítimas do terremoto também através da internet. No site de relacionamentos Orkut, ele postou uma mensagem na comunidade “Vargem Grande do Sul”, explicando como se deve proceder para efetuar as doações para ajudar as pessoas que estão desabrigadas, passando fome e sede.

 
Zilda Arns: uma grande heroína
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A médica pediatra e sanitarista Zilda Arns, 75 anos, foi a fundadora e coordenadora nacional da Pastoral da Criança e realizou ao longo de sua vida um trabalho humanitário que ficou reconhecido internacionalmente. Ela ganhou diversos prêmios nacionais e internacionais por sua atuação na área social, seja à frente da entidade ou de outros organismos dos quais participou.
Nomeada para o Prêmio Nobel da Paz no ano passado, Zilda Arns e seu irmão, Dom Paulo Evaristo Arns uniram a força da Igreja Católica aos recursos e apoio da Unicef para fundar a Pastoral em 1982. Em 2008, Zilda deixou a coordenação da entidade para dirigir a Pastoral da Pessoa Idosa, criada por ela em 2004. Os primeiros trabalhos da Pastoral da Criança começaram em 1983 em Florestópolis, no Paraná. A principal bandeira era o combate à mortalidade infantil.
Hoje, a Pastoral da Criança conta com cerca de 260 mil voluntários com treinamento médico em comunidades pelo Brasil e em 17 países da América do Sul, Ásia e África. O grupo se concentra no tratamento de crianças, oferecendo vacinação e ensinando as mães sobre exame pré-natal e nutrição. Estima-se que 1,8 milhão de crianças de até 6 anos são beneficiadas pelas ações, além de 94 mil gestantes de 42 mil comunidades pobres em mais de 4 mil municípios.

Última homenagem
Seu corpo foi enterrado no sábado, dia 16, no cemitério

Zilda Arns ficou conhecida em todo mundo devido aos seus trabalhos sociais

Água Verde, em Curitiba. Como última homenagem, as Forças Armadas ofereceram uma salva de tiros e a família promoveu uma revoada de pombas brancas. Mesmo com o enterro fechado ao público, cerca de 200 pessoas compareceram ao portão do cemitério e aplaudiram a passagem do corpo carregado em viatura do Corpo de Bombeiros. Ao todo, 7 mil pessoas passaram pelo velório da médica e sanitarista. O sepultamento foi o único momento em que os familiares pediram para ser reservado.

Fonte: Folha do Sul

 
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